Quinta-feira, Agosto 25, 2005

Os silêncios - como os teus olhos

O que liga as pessoas são os silêncios.
São as construções.
Os silêncios, se cúmplices, porque deixam a expectativa do que será dito. do que surgirá escrito. do que, mesmo não tornado som é já música, é já embalo, é já jazz...
As construções, se comuns, porque parte de um todo, parte de cada um, parte da parte de um no outro, porque composição, porque mestria, porque arte.
O que liga as pessoas é a arte. De se darem. De se saberem. De se esperarem.
Em comum, em partilha, em pleno.
O que nos liga, que nos prende, que nos faz voltar, são os olhares que deixamos presos a cada despedida. São os olhos. São o que ainda não lemos naqueles olhos. São o que queremos voltar a ver reflectido nos olhos e do olhar daqueles que nos prendem. A quem nos queremos prender.
Assim, em que fico? No silêncio. Na construção. No olhar.
Na presença ainda que ausente. No estar ainda que distante. Na luz ainda que na penumbra.
No sonho sempre se acordados. Sempre se realizáveis.
No abraço. No calor de cada abraço.
Onde estarei? estarei? serei? Sei lá. Mas também não importa nada. Ser, não ser? eis a questão diria o grande! Ser ou não ser?! Antes ser. Antes ser e assumir o ser. Ser para fazer. Realizar. Sim. Voltamos ao princípio. Voltamos ao início.Ser para realizar. Construir. Guardar naquele silêncio que impulsiona. No silêncio que nos deixa perto...
ainda que não estejas (a tua voz) aqui

37 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Silêncios... tudo dizem. Nada há de mais precioso que os silêncios, as palavras que ficaram por dizer, os momentos tão nossos que tememos que se transformem em nada a partir do momento em que se escrevem, em que se dizem...

Sem dúvida, o silêncio é de ouro!!!

Beijinhos ;-)

Da "vossa amiga"

1:59 PM, Agosto 25, 2005  
Anonymous Anónimo said...

Silêncios... tudo dizem. Nada há de mais precioso que os silêncios, as palavras que ficaram por dizer, os momentos tão nossos que tememos que se transformem em nada a partir do momento em que se escrevem, em que se dizem...

Sem dúvida, o silêncio é de ouro!!!

Beijinhos ;-)

Da "vossa amiga"

1:59 PM, Agosto 25, 2005  
Blogger Farkas said...

Bom-dia, fica o poema

QUANDO ELAS DESPERTAM

Procura guarda-las poeta,
por poucas que sejam de guardar,
do teu amar as visões.
Coloca-as meio ocultas nas tuas frases.
Procura detê-las, poeta,
quando em tua cabeça elas despertam.
de noite ou na luz crua do meio-dia.


Constantino Cavafy

2:03 PM, Agosto 25, 2005  
Blogger maria said...

Delícia...
A "Nossa Amiga" está aqui! :)

e, Farkas, em Cavafy vou sempre ter a Ítaca e aos horizontes muito para além das árvores...
mas sim, esta leitura breve, sim.
Procurar deter as visões dos afectos, para as guardar inteiras, cheias, com a cor "certa" e a força infindável quando desperta.
Não esquecerei!
:)

2:08 PM, Agosto 25, 2005  
Blogger paulo said...

Maria, já os conheces, mas achei que aqui ficavam bem:

I

Hoje o meu tema é o silêncio
Todo o silêncio, o pesado, o leve
O silêncio prolongado, e o breve
Do silêncio áspero até ao macio

Hoje interessa-me a falta de som
As vozes caladas, as bocas mudas
Hoje quero saber porque te calas
Enquanto os olhos te sobem de tom

Porque é que as palavras não ditas
Ressoam mais que o que gritas
Porque é que ao meu ouvido

Chega sempre com sentido
Essa ausência de ruído
Que berras quando não falas

II

Se o que calo é tanto quanto digo
Se falo sem boca, sem mãos, sem nada
Se o meu silêncio de boca calada
Fala tanto quanto eu comigo

Então porque é que o quebro
E digo tanta coisa a tanta gente?
Porque é que por mais que tente
De vez em quando esta boca abro?

Ficaria sem palavras se as não dissesse?
Haveria eco se não houvesse voz?
Ai palavras minhas à solta por dentro

Parem vocês somente um momento
Faça-se silêncio no meio de nós
Mudo a separar-nos como se algo acabasse

2:40 PM, Agosto 25, 2005  
Anonymous batista filho said...

...
???

é
é cá
dentro
no silêncio
de nossa alma
que somos, sentimos
e
quando
não mais
dá pra segurar
buscamos exprimir
o que somos, sentimos
através de linguagens tantas
na maioria das vezes insuficientes
pra dizer do que gestado foi
no silêncio de nossa alma
...

# Sinto que não tenhas conseguido comentar na ilha... se ti apetecer deixo o meu email, donde repassarei o que tenhas a dizer no meu/nosso sítio: ilhamutuns@uol.com.br #

Encantado!... simplesmente encantado: foi assim que fiquei ao conhecer o teu sítio.
Deixo um abraço fraterno.

2:52 PM, Agosto 25, 2005  
Blogger JRD said...

"The sound of silence"... é muitas vezes a ilusão das palavras (engolidas) nos solilóquios da solidão e do desencanto.

4:31 PM, Agosto 25, 2005  
Blogger Mendes Ferreira said...

voltamos ao silêncio que fala. sempre. e ruge. e agita. não é de ouro é de organza com asas de nevoeiro. até....

5:10 PM, Agosto 25, 2005  
Blogger Cadelinha Lésse said...

O que nos liga é a blogosfera. A nós, que estamos aqui, mesmo não estando. A nós, que temos vozes ainda não ouvidas, por isso silenciosas. A nós, que nos imaginamos por fora de tanto já nós conhecermos por dentro. Gosto destes silêncios quebrados por palavras.

5:23 PM, Agosto 25, 2005  
Blogger JRD said...

Olá Maria,

Não há "cola" para colar os (alguns)silêncios, não é necessária, visto que eles se complementam e acabam por convergir.

O sentimento estético, como o referiu ("O Estudo do belo" (?) que não conheço) e eu concordo, será porventura de momento, uma saída infelizmente adiada, já que cada vez mais, estamos na fímbria e haverá outras prioridades, como a própria sobrevivência enquanto país.
Mas será sempre por esse caminho que iremos. Quando? Não sei.
Digo eu, correndo o risco de não ter conseguido fazer-me entender.

6:37 PM, Agosto 25, 2005  
Anonymous Anónimo said...

Quem é que a ensinou a escrever???

6:38 PM, Agosto 25, 2005  
Anonymous Anónimo said...

Sandra Costa escreve no Piano assim:

"É assim que se cria a proximidade mais valiosa entre os Seres, através da vivência dos silêncios, através da funda compreensão do conceito de "imagem-nua", através da força presente de certas ausências! "

24 agosto 2005
1:40 PM

6:41 PM, Agosto 25, 2005  
Blogger Dumb said...

Podia ficar aqui a vida toda a escrever sobre silêncios, mas não o vou fazer porque ainda acho tenho muito para ouvir...

Hoje em dia os momentos em que podemos gozar de um silêncio acolhedor são tão raros, sim porque também há silêncios assustadores, que por vezes pergunto a mim mesmo se não valeria a pene ser surdo...

Estúpida prece, e a música? O que era feito dela? Resta-nos estar.

Calados...

7:54 PM, Agosto 25, 2005  
Blogger Iluvatar said...

O silêncio tamb~em tem de ser ouvido por vezes, tal como o sorriso contemplado, e é nessas pequenas magias que o nosso mundo teima em nos deparar que encontramos a subtileza da alma.
abraço
Pedro

8:29 PM, Agosto 25, 2005  
Blogger Laurariu Salice said...

Remeto-me ao silêncio, e manterei os olhos abertos, activo, contudo.

9:30 PM, Agosto 25, 2005  
Anonymous doido said...

O" que liga as vidas são os espaços."

Doido

11:36 PM, Agosto 25, 2005  
Blogger Kraak/Peixinho said...

Hey Maria :) Ainda naum te tinha agradecido a visita ao Paixaum >+++'> no teu fabuloso blog. :D Já tinha por cá passado mas naum tinha feito nenhum comentário.
Este post despertou-me imensa imaginação pq dei comigo hoje, de alguma forma, a pensar no mesmo. Isto que escreveste é muito bonito e vai ao encontro do que postei hoje (forma muito, muito reduzida).
Retenho "o que nos liga, que nos prende, que nos faz voltar, são os olhares que deixamos presos a cada despedida. São os olhos."

Parabéns. Gosto muito. Silêncio que impulsiona. Formidável!

Bjzz

11:45 PM, Agosto 25, 2005  
Blogger Waldorf, The Missing Reindeer said...

Nunca percebi o que os olhos dizem. Os meus dizem muita coisa, segundo me dizem. A maior parte dos vossos não me dizem muito, principalmente por ignorancia minha.Quem é que me vai ensinar?

12:52 AM, Agosto 26, 2005  
Blogger JRD said...

Olá Maria, boa noite.
Vejo que me fiz entender. E vejo mais, porque com a sua réplica, acabei por perceber melhor o que eu próprio já intuía. Obrigado.

A chamada crise identitária que perpassa pelo que vamos escrevendo -a Maria escreve admiravelmente- é um "privilégio" de uns poucos, eu tenho-me cruzado com ela amiúde e continuo a saudá-la, ora com amargura, ora com mordacidade, nunca com indiferença.
Apesar do tempo que já tenho não a levo totalmente a sério, mas não a menosprezo.
Porque a verdadeira crise, aquela que me morde, remete-me, por exemplo, para um poema de Carlos de Oliveira, antigo mas actual, chamado "O Viandante".

"Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu, miséria, persistes.
Tristes notícia vos dou:
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite, foi-se o dia,
fugiu a cor às estrelas:
nesta negra solidão,
só tu, miséria, nos velas!"

(até parece que regressámos ao neo-realismo...)

Creia que, não obstante tudo, o meu problema tem mais a ver com o cansaço. O cansaço do desencanto, do desencanto de uma geração que se viu remetida para o papel de protagonista de um um "remake" falhado do D.Quixote e que (falo por mim) sem se demitir, não vai muito além do que seguir com interesse inusitado a aventura, de uma pequena minoria, da sua (a da Maria) geração.

Quanto ao livro, passou-me quase ao lado, ao ponto de ter confundido o título.

Um abraço Amigo

12:54 AM, Agosto 26, 2005  
Blogger C.S.A. said...

Maria, este texto deixou-me em suspenso todo o dia. Só o título deixou-me logo preso. De resto, fica o meu silêncio africano, português do mundo.
Um beijo

1:29 AM, Agosto 26, 2005  
Blogger Mem Gimel said...

Escutar a voz da razão, atender ao seu conselho é fazer descer sobre o palco da vida um senário rectilineo de tons azuis e violetas de inverno numa soma onde o resultado é previsto.

Escutar a voz do coração é arder no fogo do inferno, subir ao eden e explodir. Saborear os polos da paixão, ser o tudo e não ser nada.

O silêncio, fexar os olhos e escutar o ponto do genesis de nós mesmos. Essa voz subtil que no centro do jardim da alma floresce, é a unica que não nos trai porque as demais são tornados nos pratos de uma balança.

1:52 AM, Agosto 26, 2005  
Blogger cgr said...

'lanço palavras ao vento na esperança que me ouças…
…promessas… falo no silêncio das palavras nunca pronunciadas

que marcaram
a minha ausência


a alegria assusta qualquer alma que em si encerra e alimenta o belo poético.'

uma (breve) divagação...

1:53 AM, Agosto 26, 2005  
Blogger Pinto Ribeiro said...

farkas...CUMPRIMENTOS. por teres trazido Kavafis.
bom dia. e o silêncio possível.

8:26 AM, Agosto 26, 2005  
Blogger Amélia said...

Belo texto, amiga. Deu-me vontade de transcrever:

THE SOUNDS OF SILENCE

Hello darkness, my old friend,
I've come to talk with you again,
Because a vision softly creeping,
Left its seeds while I was sleeping,
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence.
In restless dreams I walked alone
Narrow streets of cobblestone,
'Neath the halo of a street lamp,
I turned my collar to the cold and damp
When my eyes were stabbed by the flash of a neon light
That split the night
And touched the sound of silence.
And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more.
People talking without speaking,
People hearing without listening,
People writing songs that voices never share
And no one dare
Disturb the sound of silence.
"Fools" said I, "You do not know
Silence like a cancer grows.
Hear my words that I might teach you,
Take my arms that I might reach you."
But my words like silent raindrops fell,
And echoed
In the wells of silence
And the people bowed and prayed
To the neon god they made.
And the sign flashed out its warning,
In the words that it was forming.
And the sign said, "The words of the prophets
are written on the subway walls
And tenement halls."
And whisper'd in the sounds of silence.
- Paul Simon -

12:18 PM, Agosto 26, 2005  
Blogger Eduardo said...

O texto está admiravelmente escrito, nisso estou de acordo com outros comentadores, mas distancio-me bastante da ideia de Maria de que o que liga as pessoas são os silêncios - pelo menos se atendermos ao sentido denotativo de "silêncio" e pusermos de parte uma interpretação de natureza mais metonímica, por exemplo, ou "poética", até. O silêncio desliga, emudece, retrai; a palavra, ao rasgar o silêncio, é que religa,reune, celebra, alegra. Metaforicamente, o silêncio é a sombra e a palavra a luz. As palavras de Maria são, inequivocamente, luz, alegria, pulsão, contágio. Parabéns pela beleza do texto.

3:07 PM, Agosto 26, 2005  
Blogger mfc said...

Que lindo e bem construído texto.
Os melhores momentos são aqueles em que nada é preciso dizer, basta um olhar, uma carícia, um murmúrio para que os sentidos tudo entendam e os sentimentos fluam.

7:31 PM, Agosto 26, 2005  
Blogger Eric Blair said...

Olá.
Gostei muito das visistas e também do que aqui vi. Felizmente continuo em férias, mas voltarei logo que possível.

11:18 PM, Agosto 26, 2005  
Anonymous Casepagam said...

Fiquei no meu silêncio... boquiaberto!

3:21 AM, Agosto 27, 2005  
Blogger Menina_marota said...

"...O que liga as pessoas são os silêncios..."

Eu diria que são as palavras. A construção das palavras... a entrega das palavras, do sentimento, da sensibilidade que colocamos em cada letra do alfabeto.

E, porque eu li aqui, não só palavras, mas sentimentos, sensibilidade, afectos, não consegui ficar em silêncio.

E vim aqui colocar uma palavra.

Grata pela partilha, destas palavras tornadas Jazz...

Um abraço carinhoso :)

3:10 PM, Agosto 27, 2005  
Anonymous canzoada said...

O silêncio às vezes é bom conselheiro!

7:01 PM, Agosto 27, 2005  
Blogger hfm said...

Gosto destes diálogos interiores, destas redes pessoais e eternas. Gostei do fio condutor que as ligam.

12:49 PM, Agosto 28, 2005  
Anonymous doido said...

A blogosfera é um lugar de siêncios. Talvez por isso me atraia tanto.

Doido

5:06 PM, Agosto 28, 2005  
Blogger Fëaraniâ said...

Muitos significados tem o silêncio e o seu som inconfundível.

11:43 PM, Agosto 28, 2005  
Blogger Geosapiens said...

tanto barulho...sobre o silêncio!!!
conntinue as suas meditações...gostei bastante desta...

5:12 PM, Agosto 29, 2005  
Anonymous javali com conjuntivite said...

Olá Garota :)

As pontes que tu constróis...

Não estranharás nada se disser que nunca duvidei da tua formidável perspicácia, e com este post tu estás nas verdades incompreendidas de Wittgenstein -- o tal tipo que nunca li :P

Sobre os seres, devemos sempre passar em silêncio, como se pode interpolar também de um livro recente de Umberto Eco. Daqui vem a máxima (interpolo): Porquê o Ser? Porque SIM.

O "Sim" é uma estrutura sintática intrasponível que exclui de modo automático a sua própria negação e, neste sentido, e em todos os outros sentidos que poderás conceber, é uma coisa perfeita. É uma qualidade de "Estar". No fundo estamos com a qualidade possível, e isto é uma condição automática do "Bem", como vem na Ética.

Haverá questões possíveis que ultrapassem isto?

Citando Eco, agora linearmente: «Do ser não é preciso perguntarmo-nos por que existe: é uma evidência luminosa. O que não exclui que esta luz possa parecer-nos encandeante, tremenda, irresistível, mortal -- e parece de facto que com muitos isso acontece. Pôr-se questões sobre o seu fundamento é ilusão ou fraqueza e faz pensar naquele que, ao ser interrogado se acreditava em Deus, respondeu "Não, eu acredito numa coisa muitíssimo maior". [in "Kant e o Ornitorrinco", Difel, 1999, p. 30]

Um beijo.

4:59 AM, Agosto 30, 2005  
Anonymous Anónimo said...

Os silêncios são fossos que se abrem entre duas notas, entre duas almas. Os silêncios nada dizem, tudo sugerem. Cumpre-nos enchê-los com as nossas melodias, não deixar que o fosso se alargue a cada segundo que passa, até ser silêncio ou, de novo, melodia. Assim é a morte, assim é a vida. Viva-se, morra-se, em vida ou em morte, viva-se ou deixe-se morrer, em laços de abraços ou de silêncios.

6:35 AM, Agosto 30, 2005  
Blogger Elsa said...

"O que liga as pessoas é a arte. De se darem. De se saberem. De se esperarem"...
posso acrescentar uma coisa? - de escreverem, de gostarem de escrever, e de ler...
gostei de encontrar este espaço. bj

8:21 PM, Agosto 30, 2005  

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